13/03/2011
Algumas pessoas subestimam a importância de certos objetos. Um relógio de pulso cravejado de diamantes, por mais caro que seja, não funcionaria sem pilha, que custa cinco reais. Um carro de luxo sem a mais barata peça do motor não teria sentido parado; da mesma forma, o castelo mais cobiçado da Europa não teria tanto glamour sem a vassoura que o deixa limpinho.
Dentro desse raciocínio, resolvi aproveitar essa descoberta e mudar de profissão. Meu objetivo é ambicioso: me transformar num megaempresário em menos de doze meses. Como farei isso? Comercializarei um produto simples, barato e de importância vital para muita gente em todo o país. Que produto seria essa? Sem medo de errar, lhes digo: o penico. Mas não é um penico qualquer, vou comercializá-lo sob medida, personalizá-lo será a alma do negócio.
Partindo daí, vou ganhar muito dinheiro e, confesso, pretendo espalhar por todos os estados da federação uma rede consolidada de franquias de penico.
Meu empreendedorismo fará do penico não só objeto de utilização diária, mas também símbolo de redenção moral do brasileiro. Vejamos: o brasileiro tem duas paixões, samba e futebol. O samba possui suas raízes negras e nosso ídolo dos campos é Pelé, um negro. Apesar disso, a sociedade brasileira é, em sua maior parte, dissimuladamente racista. Quem discrimina faz “sujeira”, precisa de penico.
As mulheres brasileiras são símbolo de sensualidade e beleza, mesmo assim são tratadas como cachorras pelos homens de natureza machista. O tratamento para com as mulheres só melhorou depois da Lei Maria da Penha. “Filho de uma quinhenta” que bate em mulher é usuário assíduo de penico (com bordas reforçadas).
Meus maiores clientes virão da área política. Aí vou fazer dinheiro a rodo. É para esse tipo especial de cliente o direcionamento logístico de minha empresa, porque eles são estatisticamente os maiores produtores de material fecal do Brasil. Incomparáveis.
Em que outro país em desenvolvimento os políticos, indiferentes à pobreza geral, se acoitam e promovem uma autorremuneração tão vergonhosa que nem em países ditatoriais teria sentido? E, quando se reúnem para ajustar o salário de trabalhador, o fazem com insensibilidade tão grande que é capaz de deixar o mais educado brasileiro berrando: “Que merda é essa??!!”
Por falar em “porqueira”, gostaria de dizer que minha empresa irá fabricar uma linha especial de penico, o penico “premium”, destinado a certos políticos e autoridades em geral. Com detalhes em ouro, linhas clássicas inspiradas em traços greco-romanos e acabamento fino – esses penicos serão compatíveis com a superioridade e sofisticação de seus usuários.
Nas eleições passadas, fui criticado por muitas pessoas porque não quis vender meu voto. “Você pega o dinheiro do candidato, faz propaganda para o dito-cujo, ele ganha e pronto. Todos saem felizes”, disse-me um eleitor de meia-pataca. Para esse tipo de gente, que se vende por poucas moedas, também tenho o penico certo: feito de plástico descartável e baratinho. Quem tem coragem de negociar a própria dignidade, representada pelo direito do voto, não pensaria duas vezes em vender um penico resistente e fazer sua imundície em qualquer cantinho público. O Estado está cheio desses.
Outro tipo de cliente meu é o brasileiro conformista, o que aceita (sem reação) as imposições sociais da elite podre (e fétida) desse país; o mesmo cidadão que se conforma em pagar impostos altíssimos e não tem sequer direito à assistência quando precisa de um comprimido para dor de cabeça num posto médico. E acha tudo “normal”.
Vamos às vendas.
(O Jornal, Maceió, sábado, 12 de março de 2011)
Não se esqueçam de que os meus ensaios estão, aos sábados, no Portal de O Jornal (www.ojornalweb.com)
Colaboração: James Magalhães/Secretário de Comunicação/Sintect-AL