(82) 3326-4454
sintect-al@uol.com.br

Dilma e as greves

19/10/2011

...

 

Autor(es): Adriana Nicacio

Isto é - 17/10/2011

 

Diante das paralisações e da pressão dos sindicatos por aumentos, a  presidente diz não aos trabalhadores e escala ministros para negociar  com cada categoria. A estratégia é dura, mas não compromete a relação  entre o governo e as centrais

Como ocorre em todo o primeiro ano de governo, o movimento  sindical estica a corda nas negociações por aumentos salariais com o  Palácio do Planalto no período de definição dos dissídios coletivos  trabalhistas. Foi assim durante os governos Fernando Henrique Cardoso e  Luiz Inácio Lula da Silva, e o cenário se repete agora. Escaldada, a  presidente Dilma Rousseff montou previamente uma estratégia para lidar  com as exigências das categorias profissionais. O plano foi colocado em  prática na semana passada, quando a presidente estava na Bélgica,  participando da 5ª cúpula Brasil-União Europeia. Dilma indicou  auxiliares e integrantes de primeiro escalão para negociar com cada  categoria específica e em pelo menos cinco telefonemas para os  subordinados em Brasília a presidente deixou clara sua posição. “Avisem  que a minha orientação é a de não fazer concessões”, determinou.

Dilma decidiu jogar duro com os sindicatos por dois motivos. O primeiro é  a preocupação com os efeitos da crise internacional sobre a economia  brasileira. Outro é a consciência de que está diante de um movimento  sindical dócil, domesticado por Lula nos últimos oito anos. A maioria  das categorias de servidores, por exemplo, teve generosos aumentos acima  da inflação. Já a cúpula sindical foi amaciada ao sabor da liberação de  verbas e acomodações em cargos públicos. Hoje, não seria leviano  afirmar que os sindicalistas são tão ou mais governistas que o PMDB. “Os  trabalhadores têm muita gordura para queimar”, repetiu Dilma nos  últimos dias. “As coisas mudaram. No governo Lula, havia muito mais  espaço para negociações”, reconhece José Rivaldo da Silva, presidente da  Federação Nacional dos Trabalhadores de Empresas de Correios.  Nessa estratégia de recrudescer o diálogo, a presidente defendeu o  corte do ponto dos grevistas e o fim do diálogo com os líderes sindicais  até o pronunciamento da Justiça do Trabalho. Ao pesar a mão, ela quer  desencorajar demandas de outras categorias, como os petroleiros, que já  aprovaram indicativo de greve para a terça-feira 18. Há grande receio  com o efeito cascata que seria provocado por aumentos excessivos e seu  impacto sobre a inflação.

As preocupações não devem se restringir apenas à economia,  ensina a retrospectiva histórica. O ex-presidente Fernando Henrique  Cardoso, quando endureceu o discurso, pagou uma conta pesada. Em maio de  1995, os petroleiros iniciaram uma greve histórica. Mais de 90% da  categoria parou por 32 dias contra a privatização da Petrobras. Após uma  semana, o TST considerou a greve abusiva, mas os petroleiros não  cederam. A greve foi marcada por demissões, punições e a presença de  tanques do Exército nas refinarias da Petrobras. Com isso, Fernando  Henrique sofreu enorme desgaste e viu chegar ao fim a lua de mel com os  trabalhadores. Diferentemente de FHC, a presidente Dilma Rousseff não  quer deixar que a situação chegue a esse ponto. Apesar de enfrentar um  sindicalismo de espírito “paz e amor”, ela fez questão de se cercar de  cuidados para que nenhum sobressalto político – ou econômico – possa vir  a afetar sua popularidade. Se de um lado ela congelou no Congresso o  reajuste de 57% do Judiciário e impediu os aumentos da Polícia Federal,  de outro escalou quatro ministros para sentar à mesa com os grandes  sindicatos.

 

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, ficou responsável pela greve dos Correios.  Por decisão dele, os contracheques dos grevistas com os dias  descontados foram divulgados na intranet da empresa. O ministro da  Fazenda, Guido Mantega, recebeu a incumbência de acompanhar a greve dos  bancários e vetou o aumento real de 5%. A tarefa da ministra do Planejamento, Miriam Belchior,  é manter o cofre fechado. Ao ministro da Secretaria-Geral da  Presidência, Gilberto Carvalho, cabe seguir de perto os desdobramentos  das negociações com os sindicatos. Mas ele não está sozinho nessa  missão: é assessorado pelo experiente sindicalista José Lopez Feijóo,  que trocou a vice-presidência da CUT pelo Planalto em abril. O deputado  estadual Carlos Alberto Grana (PT-SP), que acumula 32 anos de  sindicalismo no ABC paulista, também ajuda nos bastidores. Assim,  sindicalistas e governo seguem falando a mesma língua. Um dos argumentos  dos ministros à frente das negociações foi apelar à razão dos  trabalhadores argumentando que uma crise econômica, caso o País não  cuide de suas contas públicas, poderá ser ruim para todo mundo. “Há uma  tempestade se formando no céu, não podemos sair de bermuda e camiseta.  Temos que ter um guarda-chuva”, justifica o ministro das Comunicações,  Paulo Bernardo, titular do Planejamento do governo Lula.

O guarda-chuva significa negociar, mas ao mesmo tempo não dar  muita guarida aos grevistas na esfera pública. Tanto assim que a greve  dos Correios, depois de 28  dias, foi parar no Tribunal Superior do Trabalho. O movimento esticou  além da conta e, ao fim da paralisação, os carteiros ficaram felizes  porque o TST descontou dos salários apenas sete dias. Os outros 21 serão  pagos em horas extras. A empresa sofreu um prejuízo de R$ 200 milhões e  os grevistas, que haviam pedido aumento superior a 14%, só receberam  6,87%, além de aumento geral de R$ 80. “O que nós queríamos não  conseguimos. Mas demos sorte, porque o TST não aplicou a súmula  vinculante. Se tivesse, teríamos perdido muito”, diz o sindicalista José  Rivaldo.

 

Com os limites de negociação estreitos, os sindicalistas se movem como  podem. Na semana passada, quando os bancários entravam na terceira  semana de greve sem que a Federação Nacional dos Bancos se manifestasse  sobre um acordo, o presidente da CUT, Artur Henrique, passou dois dias  tentando convencer o ministro Guido Mantega a pressionar os bancos  públicos a abrir o diálogo com os trabalhadores. O meio de campo foi  feito. Na véspera de embarcar para a reunião do G-20 em Paris, na  terça-feira 11, Mantega entrou em contato com o presidente do Banco do  Brasil, Aldemir Bendine. Pediu que os grevistas fossem ouvidos, mas  alertou que o reajuste de 12,8% não seria compatível com o momento  econômico. Apesar do jogo duro, Dilma Rousseff tem a seu favor a  simpatia irrestrita das centrais sindicais e das lideranças dos  servidores públicos. Todos participaram ativamente de sua campanha e  ainda estão longe de lhe retirar o voto de confiança. “O primeiro ano do  governo Dilma exigiu o endurecimento, mas o ano que vem pode ser de  benesses”, diz José Almiran Rodrigues, coordenador jurídico da Federação  dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas.

 

FONTE: Revista Isto É (17/10/2011)

 


Rua Ceará, 206 Prado Maceió - Alagoas 57010-350
SINTECT ALAGOAS 2026
(82) 3326-4454 sintect-al@uol.com.br