14/02/2013
Alguns líderes mundiais vivem em palácios. Alguns gozam de regalias como um mordomo, uma frota de iates ou uma adega com champanhes. E no meio disso tudo, há José Mujica, o ex-guerrilheiro que é presidente do Uruguai. Ele vive em uma casa simplória, na periferia de Montevidéu, sem empregados. Sua equipe de segurança: dois policiais à paisana estacionados em uma estrada de terra.
Diante desta nação de 3,3 milhões de pessoas, Mujica, 77 anos, se recusou a ocupar a mansão presidencial Suarez y Reyes, com sua equipe de 42 empregados, optando por permanecer na casa onde ele e sua esposa vivem há muitos anos, em um pedaço de terra onde crescem crisântemos para venda em mercados locais.
Visitantes chegam até a casa de Mujica após descerem a rua O‘Higgins, passando por bosques de limoeiros. Seu patrimônio líquido ao assumir o cargo em 2010 era de cerca de US$ 1,8 mil - o valor do Volkswagen Beetle 1987 estacionado em sua garagem. Ele nunca usa gravata e doa cerca de 90% do seu salário, principalmente para um programa de ampliação de habitação para os pobres.
À medida que a doença tirou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, do cenário político repentinamente, deixando o continente sem um ícone, o ascetismo praticado por Mujica é um estudo de contrastes. Ele argumenta que para a democracia funcionar corretamente, os líderes eleitos devem receber menos atenção do que normalmente recebem.
"Temos feito o possível para que a presidência se torne algo menos venerado", disse Mujica em uma entrevista, depois de preparar em sua cozinha um chimarrão.
Ao passar o chimarrão adiante, reconheceu que seu estilo de vida descontraído pode parecer incomum. Ainda assim, disse que foi de uma escolha consciente de renunciar às armadilhas do poder e da riqueza. Citando o filósofo Seneca, Mujica disse: "Pobre não é o homem que tem pouco demais, mas o homem que anseia por mais."
O líder no comando das mudanças do Uruguai, conhecido por seus muitos detratores e simpatizantes como Pepe, é alguém que poucos pensaram que poderia assumir tal posição. Antes de Mujica se tornar um jardineiro de crisântemos, ele foi líder dos Tupamaros, o grupo de guerrilha urbana que se inspirou na revolução cubana e realizou assaltos à mão armada em bancos e sequestros nas ruas de Montevidéu.
A contra-insurgência brutal subjugou os Tupamaros e a polícia capturou Mujica em 1972. Ele passou 14 anos na prisão, incluindo mais de uma década em confinamento solitário, muitas vezes em um buraco no chão. Durante esse tempo, passava mais de um ano sem tomar banho, e seus companheiros, segundo ele, não passavam de pequenos sapos e ratos com quem dividia migalhas de pão.
Mujica raramente fala sobre a época que passou na prisão. Sentado em uma mesa em seu jardim, tomando seu chimarrão, ele disse que teve tempo para refletir. "Eu aprendi que sempre se pode começar de novo."
Ele escolheu começar de novo ao entrar para a política. Eleito deputado, chocou os atendentes de estacionamento no Parlamento por chegar em uma Vespa. Em 2004, após a ascensão da Frente Ampla, uma coalizão de partidos de esquerda e social-democratas mais centristas, foi nomeado ministro da Agricultura, Pecuária e Pescas.
Suas doações o deixam com cerca de US$ 800 por mês de seu salário. Ele e sua esposa Lucia Topolansky, uma ex-guerrilheira que também foi presa e é agora uma senadora, não precisam de muito para viver. Em uma nova declaração, em 2012, Mujica disse que atualmente compartilha propriedade de bens que anteriormente estavam apenas no nome de sua esposa, incluindo sua casa e equipamentos agrícolas, o que aumentou seu patrimônio líquido.
De fato, se há algum país da América do Sul onde um presidente pode dirigir um Fusca e passar sem uma grande comitiva de guarda-costas, seria o Uruguai, que se classifica consistentemente entre as nações menos corruptas e menos desiguais da região. Embora o aumento do crime seja uma preocupação, o Uruguai continua sendo um concorrente para o país mais seguro da região.
Mas o estilo de governo de Mujica não é do agrado de todos. A proposta de legalizar a maconha, em particular, incitou um debate acirrado, com pesquisas mostrando que a maioria dos uruguaios se opõem à medida. Em dezembro, Mujica pediu a legisladores para adiar a votação para regular o mercado da maconha, embora esteja se esforçando para que o projeto de lei seja discutido novamente em breve.
Pesquisas mostraram que os índices de aprovação estão em declínio, mas "não dou a mínima", insistiu Mujica, enfatizando que ele considerava a reeleição para mandatos consecutivos, já proibida pela Constituição do Uruguai, como "monárquica". "Se eu me preocupasse com pesquisas de opinião, eu não seria presidente."
Com dois anos restantes de seu mandato, Mujica parece valorizar a liberdade de poder dizer o que pensa. Sobre suas crenças religiosas, disse que ainda estava à procura de Deus.
Fonte:
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/2013-02-14/a-austeridade-do-ex-guerrilheiro-mujica.html (texto com ajustes)