13/08/2013
A sequência de reajustes nos preços da gasolina e do
diesel este ano levou a área de refino da Petrobras ao menor prejuízo em dois
anos: R$ 2,5 bilhões no segundo trimestre de 2013. Mesmo assim, a empresa já
pressiona o governo por novos reajustes, preocupada com os efeitos do câmbio
nos gastos com importação de combustíveis no terceiro trimestre. Com índice de
alavancagem (investimento sobre patrimônio líquido) próximo do limite
considerado ideal, a empresa quer evitar a perda do grau de investimento, diante
da deterioração da geração de caixa.
Iniciada no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, a queda de braço entre Petrobras e a área econômica do governo
ganhou força depois da posse de Graça Foster na presidência da empresa, em
2012. Se antes a companhia limitava-se a dizer publicamente que exercia uma
"política de preços de longo prazo", agora não tem receio de repetir
que faz gestões junto ao acionista majoritário para recuperar suas margens com
reajustes de preços. Apenas este ano, três aumentos foram autorizados - dois
para o preço da gasolina e um para o diesel.
O balanço do segundo trimestre mostra o efeito dos
reajustes, com alta de 13% no lucro operacional, frente ao primeiro trimestre,
para R$ 11,1 bilhões. Em entrevista para explicar o resultado, concedida ontem,
porém, o diretor Financeiro da empresa, Almir Barbassa, disse que tem
"trabalhado intensamente" por ajuste dos preços domésticos. A
Petrobras não abre seus números, mas a consultoria Tendências calcula que a
disparada do dólar na virada do semestre elevou a defasagem do preço da
gasolina para 32,5%. No caso do diesel, a diferença entre os preços internos e
a cotação internacional é de 26,9%.
Barbassa disse que, nas condições atuais, a Petrobras
deve ultrapassar, ao fim do terceiro trimestre, o teto de alavancagem que
considera ideal, de 35% - ao fim do segundo trimestre, quando a empresa captou
US$ 15 bilhões, o indicador fechou em 34%. Isso porque, ao usar caixa para
investimentos, a companhia reduzirá seu patrimônio líquido. Barbassa ponderou
que as perspectivas de crescimento da produção devem sensibilizar as agências
de risco a manter a classificação da empresa. A perda do grau de investimento
afugenta investidores e aumenta os custos de captação.
"A situação de caixa é preocupante. Foi só a empresa
falar que vai consumir mais caixa no terceiro trimestre que as ações começaram
a cair", apontou o economista-chefe da SLW Corretora, Pedro Galdi. De
fato, as ações da estatal fecharam o pregão de ontem com queda de 3%. "A
principal preocupação do mercado é a estrutura de capital", completa. A
Petrobras fechou o trimestre com R$ 51 bilhões em caixa, quase o dobro do
registrado no trimestre anterior. Mas tem compromissos com investimentos de
valor semelhante até o final do ano.
Criticado por investidores, o controle dos preços dos
combustíveis vem tendo participação importante no combate à inflação, pondera o
economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. "Dado que a
Petrobras é uma empresa estatal, e os investidores sabem disso desde o momento
em que compram as ações, porque não usá-la no controle à inflação?",
questiona ele. "Ninguém ainda parou para contabilizar qual seria a redução
do crescimento da economia se a inflação tivesse subido mais", completa,
lembrando que a gasolina é o segundo item commaior peso no IPCA, com 4,20% de
participação.
Segundo Perfeito, um reajuste de 5% no preço da gasolina
resulta em alta de 0,20 ponto percentual na inflação. É por este motivo que o
consultor da Tendências Walter de Vitto acredita que o governo deve autorizar
apenas reajuste no preço do diesel este ano. "No cenário atual, com os
protestos nas ruas, não vejo aumento da gasolina. Mas no caso do diesel, o impacto
na inflação é mais diluído", argumenta. Nas suas contas, uma alta de 7,5%
no preço do diesel ainda este ano ajuda a Petrobras - é o combustível mais
importado pelo país - sem que o IPCA estoure, no final do ano, o teto da meta
estipulado pelo governo, de 6,5%.
Perfeito também acredita que haja espaço para reajustes,
diante do recuo da inflação em julho. Um aumento agora teria impacto positivo
sobra a imagem da empresa, argumenta, atraindo investidores estrangeiros para a
Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). "Combater inflação segurando
preços provoca distorções no mercado e reduz o incentivo à expansão da
oferta", avalia Vitto. "É uma conta complexa: tem o lado visível, que
é a inflação, mas tem o lado dos investimentos da Petrobras, que resultam em
incremento da atividade econômica", completa o consultor.
Importações de combustíveis caem no
segundo trimestre
Para tentar conter as perdas com a defasagem de preços, a
Petrobras vem investindo em refinarias para reduzir as importações de
combustíveis. No segundo trimestre de 2013, registrou uma redução de 66% nas
compras de gasolina e diesel no exterior, fechando o período com uma importação
média de 81 mil barris por dia dos dois combustíveis. O Brasil já foi
exportador de gasolina, mas o crescimento da frota de automóveis e frustrações
com a oferta de etanol puseram fim aos excedentes.
A melhora na balança comercial de combustíveis da
Petrobras, porém, deve ser revertida no terceiro trimestre, quando duas
refinarias param para manutenção, a Refinaria Gabriel Passos, em Minas Gerais,
e a Refinaria do Henrique Lage, em São Paulo. Juntas, as duas têm capacidade
para produzir 400 mil barris de derivados de petróleo por dia.
Em contrapartida, as exportações da empresa também caíram
no trimestre, para 359 mil barris por dia - basicamente, são vendidos petróleo
bruto e óleo combustível. O valor é 12% menor do que o registrado no primeiro
trimestre e 35% menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior. A
empresa espera ampliar as exportações com o início de operações de quatro novas
plataformas até o fim do ano.
Alta do dólar será diluída em sete
anos
O diferimento do impacto cambial no resultado financeiro
da Petrobras poderá ocorrer em cerca de sete anos, prazo médio da dívida da
estatal, disse ontem o diretor financeiro da empresa, Almir Barbassa. O lucro
líquido da petroleira no segundo trimestre superou as expectativas do mercado
com uma mudança contábil para reduzir o efeito da alta do dólar
na dívida.
A nova contabilidade teve um impacto positivo da ordem de
R$ 5 bilhões no lucro de R$6,2 bilhões de reais. "A contabilidade de hedge
coloca os números da empresa alinhados com o caixa", afirmou Barbassa
durante entrevista de detalhamento no balanço da companhia. A medida foi usada
para reduzir os impactos da variação cambial ao final do primeiro trimestre.
Como resultado deste efeito benéfico da mudança contábil,
a Petrobras poderá distribuir dividendos adicionais de R$ 600 milhões de para
detentores de ações ordinárias na segundo semestre, acrescentou o executivo.
"Não é distribuição extra, mas o que pode haver é a aprovação pelo
Conselho de Administração (do dividendo a mais). Agora com lucro líquido maior,
que não foi afetado pela variação cambial, há a oportunidade de aumentar
participação das ONs nos dividendos", afirmou.
Mas o executivo pondera que a distribuição de dividendos
além do esperado terá de passar ainda por decisão do Conselho e de acionistas.
"Até o fim do ano ainda tem muita água para correr." Segundo ele, a
distribuição de dividendo para ações preferenciais deverão ter valor definido
por percentual de 3% do patrimônio líquido. Barbassa explicou ainda que pela
nova contabilidade, se o dólar recuar, o valor de perda cambial que migrou para
patrimônio líquido será retirado do resultado.
Caso contrário, se a moeda americana permanecer elevada,
a empresa vai descontar tais perdas da receita com exportações, e a diluição
será realizada ao longo de vários anos. O resultado do trimestre também teve
efeito pontual de venda de ativos.
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