01/02/2010
Agamenon Magalhães Júnior
Estamos vivendo um período difícil a respeito dos padrões morais através da mídia. Hoje em dia, por exemplo, os programas de maior audiência recebem o formato reality show. E qual o maior sonho de consumo do brasileiro de classe média? Concorrer, fazendo as piores barbaridades, à premiação do “Big Brother Brasil”, claro. E os que não se prontificam a participar dele se dizem fãs desse tipo de programação. Como se estivesse hipnotizado, o telespectador defende-o: “É um ótimo divertimento. E é educativo também porque aprendo a observar o ser humano por meio de um aspecto diferente”.
Se “divertimento” é sinônimo de “desperdício de tempo”, acho que a maioria dos entusiastas pelo programinha tem razão.
Mas a questão aqui vai além de gosto pessoal; a palavra-chave é “manipulação”, ou seja, o controle sobre a própria vontade de querer ou não algo.
A gravidade do assunto se intensifica porque o tema não é bem discutido pela sociedade.
Numa sociedade consumista ao extremo e que também possui a cultura da dominação sobre a massa através, em especial, da TV - a publicidade televisiva que se faz de algo chega a beirar a imposição.
A obrigatoriedade do consumo deixa o cidadão escravo de si mesmo. Ao comprar um carro novo ou trocar o celular para se sentir melhor (ou mais importante), a vítima da mídia se submete ao jogo sujo do consumo desmedido.
A questão é: como conscientizar o pobre coitado, cujo salário mal dá para ele se alimentar, que aquele relógio que ele comprou igual ao do artista de TV não o torna celebridade? Ele continua um simples anônimo.
A imposição do consumo se estende a tudo: da cor da roupa que se deve usar ao tipo de programa ao qual se deve assistir, passando pelo tipo de música descartável que nos enfiam ouvido adentro - o poder da mídia sobre a sociedade se tornou devastador.
A manipulação de um povo o deixa numa situação de indigência moral. “O pior mal da escravidão é conservar os cativos na ignorância e bruteza, pela opinião de que são assim mais dóceis, humildes e subordinados”, escreveu, com ironia (e verdade), o sábio Marquês de Maricá.
Refazendo o pensamento: o estereótipo do consumidor brasileiro é bastante útil para as grandes empresas de comunicação. Enquanto as necessidades do coletivo forem saciadas pelas ordens da mídia, tudo bem. “Compre! Consuma! Assista!”, ordenam as grandes redes de TV a seus fiéis seguidores.
A ruptura com essa tirania da alienação nasce pela consciência do que é bom para si (e para a sociedade). Num primeiro passo, não precisamos filosofar sobre o poder que move essas engrenagens e determina as regras do mercado. Aí é para um estudo mais profundo. Comece, caro consumidor, desconfiando de tudo que lê, assiste ou ouve. O princípio do bom senso inicia-se nessa teoria. E se estende a todos quando mantemos a vigilância sobre o tema.
Perguntei a um adolescente por que ele trocava o celular de seis em seis meses. “Porque o mercado lança um aparelho mais moderno do que outro e eu não resisto. Ou compro ou morro”, disse ele. Em outras palavras, esse exemplo clássico de escravidão ao consumo mostra-nos como, sem perceber, o cidadão se deixa seduzir pelo consumismo.
Não é a mídia em si que é ruim; pelo contrário, ela tem uma função nobre na sociedade. É, porém, o modo como as pessoas “aceitam” passivamente desses veículos a verdade e a mentira, o certo e o errado, a informação e a desinformação...
“Não se pode tachar a televisão de anticultura: cada povo tem o programa que merece”, escreveu Júlio Camargo em “A arte de sofismar”. Essa verdade impõe-nos mudança de comportamento. Não cabe à mídia decidir o que uma pessoa vai ou não comer. Num Estado democrático, esse poder não pode nem cogitar de fazê-lo. O que lhe compete é informar e orientar. A escolha soberana pertence a cada um.
(O Jornal, Maceió, sábado,
Colaboração: James Magalhães