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Verdades e mentiras

09/02/2010


Agamenon Magalhães Júnior

 

A verdade e a mentira se firmam, muitas vezes, pela ideia de que formamos dos dois conceitos; ou talvez pelo poder de reflexão sobre os fatos da vida. Quando Michael Jackson morreu, em junho de 2009, fiz um comentário a minha filha e ela não acreditou em mim. “Morreu um dos maiores músicos negros da música”, refleti, entristecido. Ela me olhou e, sem pestanejar, disparou: “Papai, Michael Jackson é branco”. Como eu não estava disposto a explicar algo tão complexo a ela, criei uma “mentirinha”, disse-lhe que “ele ficou branco porque caíra num pote de creme dermatológico”. Minha menina comprou a informação como verdadeira. Depois a consciência pesou e eu lhe contei a história correta.

Certa vez, alguém me disse, ao saber que eu gostava de rock, que minha personalidade “séria” não combinava com esse estilo de música. Comentei que uma coisa nada tem a ver com outra; aí citei um bom exemplo de “seriedade”: o apresentador e editor do Jornal Nacional, William Bonner, com toda a sua sisudez visível no noticiário de TV mais popular do País, sempre foi fã de Renato Russo. Quando o cantor morreu, em outubro de 1996, Bonner dedicou - junto com sua equipe de jornalistas - metade do tempo do telejornal à vida e à obra de Renato. E o apresentador disse que ainda pensou em recitar um dos 159 versos de “Faroeste caboclo” (sucesso da Legião Urbana que Bonner ainda sabe de cor), mas mudou de ideia no último minuto antes do início do jornal. Em 2009, Bonner foi a Nova Iorque e, por acaso, viu o ex-beatle Paul McCartney numa esquina, caminhando rápido com o celular ao ouvido. Bonner ficou boquiaberto e não custou em registrar esse acontecimento em sua página pessoal no Twitter. Ele é fã dos Beatles. Sim, as pessoas acham que esses dois fatos são “ficção”minha. Puro engano deles.

Verdade seja dita que a linha tênue entre a verdade e a mentira é quase invisível (fato muito perigoso, se não ponderado). Por isso há pessoas que preferem uma “segura” mentira a uma “perigosa” verdade.

“Mais vale o erro em que se crê do que a realidade em que não se crê; pois não é o erro, e sim a mentira, que mata a alma”, filosofou o escritor Unamuno. Esses conceitos de verdade, mentira, ilusão e realidade, expostos por Unamuno, se completam, ou mais ainda, eles se interagem, como se o convívio com os extremos fosse uma opção para a harmonia do homem com o mundo.

Para muitos, a verdade é tão onipresente e arrebatadora que eles esperam ocasião ou oportunidade para dela falarem: a esse tipo de gente, a vida chama-os de “omissos”; para outros, a mentira é o único refúgio para se livrarem da dura realidade: o destino tacha-os de “covardes”; para alguns, escolher entre a verdade e a mentira depende da vantagem que esses tiram sobre alguém ou alguma coisa: esses nasceram para a estupidez. E há aqueles que, mesmo sendo contra tudo e contra todos, colocam a verdade em primeiro plano, como conduta pessoal e filosofia de vida: a história da Humanidade costuma retratá-los como “heróis”.

Sejamos “heróis”, mesmo que não participemos de sagas ou odisseias. Ser sincero hoje em dia já é um ato de heroísmo.

“Em verdade, mentir é vício odioso. Somente pela palavra é que somos homens e nos entendemos. Se compreendêssemos claramente o horror e o alcance da mentira, contra ela pediríamos o suplício da fogueira que, com menor razão, se aplica a outros crimes”, escreveu Michel de Montaigne. Para os dissimuladores do mundo, essas palavras revelam em que categoria na sociedade eles se enquadram, pois “é preferível a companhia de um cão à de um homem cuja linguagem desconhecemos”.

Sabendo que as grandes injustiças do mundo começam com pequenas mentiras, cabe ao homem livrar-se desse desvio de caráter ou, no mínimo, afastar-se dele. E não porque se queira fazê-lo, mas porque precisa ser feito. Não é uma questão de escolha; é, sim, de obrigação. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que deveria. E nisto gastamos metade da vida”, reafirmo.

 

(O Jornal, Maceió, sábado, 6 de fevereiro de 2010)                   

Colaboração:  James Magalhães

 


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