20/02/2010
(Agamenon Magalhães Júnior)
O que leva um profissional competente a desistir de um sonho? Os obstáculos inerentes ao trabalho ou a própria impossibilidade de mudar uma situação insustentável seriam motivo para professores trocarem as salas de aula por outras atividades?
Por esses dias, dois professores de comprovada competência deixaram de lecionar. Ambos alegaram a mesma razão, disseram-se “cansados”. Apesar de trabalharem doze horas por dia, o cansaço de que reclamavam se referia ao sistema educacional, nada a ver com o dia-a-dia profissional.
Eles saíram da sala de aula, mas não desistiram da educação. Um vai para o ramo da publicidade e o outro tentará se sobressair na área financeira privada. Cada um a seu modo, ainda se dedicará a contribuir com um pouco de si para o desenvolvimento da sociedade, porém em outra atividade.
Em geral, noto esse sentimento de frustração entre os professores. Os que não podem sair da labuta são os malogrados, são os que, infelizes, não têm força para lutar contra as mazelas do meio educacional. Por consequência, se acomodam e terminam justificando a indigência moral em que se meteram. “Imagina-se erradamente que os ladrões, os assassinos, os espiões e as prostitutas julgam desfavoravelmente a sua profissão e dela se envergonham. Nada mais falso. As pessoas que o seu destino e suas faltas colocam em determinada situação, por mais repreensível que seja, se constroem uma concepção geral da vida em que a sua situação particular aparece eminentemente útil e respeitável”, ratifico.
Já os professores muito capazes, quando se veem frente a frente com os problemas da educação, pulam fora desse caldeirão em ebulição. Cair fora de algo extremamente deficiente – e sem perspectiva de mudança – não é ato de covardia. Acho, sim, uma atitude inteligente.
Para fugir desse caos na educação, o mestre mais qualificado prefere mudar de ofício a ter que se submeter a quaisquer tipos de situações vexaminosas.
Essa falta de compromisso com os professores faz com que a própria sociedade sofra as maiores punições. Quando o professor muda de profissão, ele segue sua vida com normalidade; ele não perde nada. Quem perde é a sociedade.
Advogados, médicos, engenheiros e jornalistas passam pela mão moldadora do professor. Os melhores profissionais que eu conheço tem em grande conta os seus mestres. Sem a orientação do professor, qualquer um que queira seguir numa profissão com dignidade encontrará obstáculos quase intransponíveis, logo o mestre funciona como um facilitador (e isto, por si só, já seria motivo suficiente para um país valorizar seus professores).
Entretanto a mentalidade por aqui é bastante diferente. Para um país que quer se desenvolver e se firmar social e economicamente, ainda não aprendeu a primeira lição: valorizar os professores. Bastam-nos uma política de incentivo à carreira, como fazem os norte-americanos, e o justo reconhecimento de nosso valor, como faz questão de salientar toda a comunidade europeia com seus mestres.
Mais uma vez, o Brasil – no trato com os professores – escolhe os piores exemplos: os países subdesenvolvidos. Por aqui, o professor tem tanto valor quanto um gari, merece tanta atenção quanto um vendedor ambulante de pastéis ou se nivela em mérito a um trabalhador braçal de roça.
Essa verdade, apesar de forte, revela a distância entre a sociedade fragilizada em que vivemos e a sociedade forte e justa com a qual sonhamos.
Todos almejamos viver num país melhor, então a sociedade deve tratar com dignidade os professores; dando-lhes condições de trabalho e remuneração à altura de sua importância. Isso já seria um bom começo para que a educação não perca seus melhores mestres.
(O Jornal, Maceió, sábado, 20 de fevereiro de 2010)
Colaboração: James Magalhães