02/03/2010
(Agamenon Magalhães Júnior)
Com a criação da Lei do Ventre Livre (1871) e depois com o fim da escravidão, as crianças que eram libertadas não tinham mais onde ficar. Elas se livraram da senzala, mas a escravidão as acompanhava implacavelmente. A sociedade não estava preparada para recebê-las. Não havia estrutura social (por exemplo - escolas, creches ou ONGs) para assisti-las; por conseguinte iam parar na rua.
Para quem acha que essa constatação histórica pertence apenas aos fatos longínquos da História, nada mais do que isso, está alheio à realidade. Basta olhar o número de pedintes e de crianças que vagam por toda a cidade e sobre essa questão não faltam reflexões.
O senso comum vê essas crianças à margem da sociedade com rejeição, pena e – não raro – nojo. Quaisquer que sejam os estabelecimentos comerciais – bancos, restaurantes ou em frente de lojas no Centro da cidade – aparecem às dezenas meninos pedindo ajuda ou vendendo doces e chicletes (produtos que não deixam de ser um tipo imediato de esmola velada). O esnobismo com que são tratados chama a atenção. Um grupo grande de pessoas, quando dá dinheiro a algum garoto de rua, se comporta como se estivesse fazendo a parte que lhe cabe na sociedade. O problema se agrava com isso.
Numa análise crua, creio que “a sociedade não pratica nenhuma das virtudes que exige dos homens; comete crimes a toda hora, mas comete-os por palavras; prepara as más ações por brincadeira, como degrada o belo pelo ridículo; troça dos filhos que choram demasiadamente seus pais, anatematiza os que não os choram bastante; depois ela se diverte, Ela! a sopesar os cadáveres antes que esfriem”. E, de verdade, o que se entende como sociedade resume-se ao conjunto de atitudes e ações dos homens.
É importante salientar que, à sombra de cada pedinte menor de idade, há um adulto por trás, cuja função é institucionalizar a esmola. Essa “indústria” se fortifica à medida que o Estado fecha os olhos para o problema. Há casos em que mães colocam os filhos nos semáforos da cidade para vê-los “produzindo” renda. Outras mães fazem pior: alugam as crianças mais novas, em geral ainda de colo, para outro pedinte se utilizar dos serviços da inocência. Para sensibilizar o coração duro do trabalhador urbano, somente com um recém-nascido nos braços. Na real, é arrasador o apelo visual de uma mulher maltrapilha com o objetivo de abrir o coração (e a bolsa) de quem se dispõe a dar esmola.
O Brasil está entre os três países que mais explora esse tipo de atividade na América Latina. O “mercado de pedintes” rende uma boa renda para quem ganha dinheiro indiferente à dignidade humana. Uma pesquisa realizada há pouco tempo pelo IBGE, órgão que levanta dados e estatísticas do nosso país, revelou que há crescimento anual de 10% no número de famílias pobres que recrutam jovens para ajudar no orçamento doméstico por meio de esmolas em vias públicas.
O relato não é novidade e o poder público sabe de todos os detalhes sobre o caso, logo não faz nada porque não quer ou acha que se trata de assunto “ameno”.
É fato que os garotos explorados em faróis (pedindo dinheiro ou vendendo doces) e, principalmente longe das escolas, se transformarão – salvo pequeníssimas exceções –
Em maior ou menor grau, todos somos culpados por essa vergonha social. Por causa da negligência aos pequenos, a sociedade transforma menores abandonados em criminosos com uma velocidade assustadora. Que pelo menos a indignação seja a primeira resposta contra esse absurdo.
(O Jornal, Maceió, sábado,
Não se esqueçam de que os meus ensaios estão, aos sábados, no site de O JORNAL (www.ojornal-al.com.br)
Colaboração: James Magalhães