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Pulando de religião em religião

09/03/2010


 

 

 

 (Agamenon Magalhães Júnior)

 

 

            Num canal de TV, o pastor faz coisas que até Deus duvida: em apenas um programa exibido pela televisão, pessoas são curadas do câncer, soropositivos se dizem livres da doença, mulheres sem útero anunciam gravidez, paralíticos jogam suas muletas, cegos voltam a enxergar e centenas de pessoas correm para o templo para testemunhar milagres que só se conheciam por meio da Bíblia.

            Noutro programa religioso, o padre é menos barulhento, mas não menos convincente. Ele não berra nem esperneia, embora a pregação seja intensa e persuasiva. Raro é o telespectador que, com a mente aberta e o coração bom, não se deixe influenciar por um ou outro argumento. Tudo muito correto. A força da oratória de um padre faz acalmar o coração aflito do seguidor, cujo espírito anseia por conforto.

            Os simpatizantes de Allan Kardec não têm tanta exposição na mídia, tampouco os freqüentadores dos terreiros de macumba; embora ambas as religiões venham ocupando espaço cada vez mais significativo na sociedade. Os kardecistas, há anos, encontraram entre artistas, músicos e escritores adeptos ferrenhos da filosofia espírita; fato que serve como divulgação desta doutrina. Da mesma forma, vê-se também uma relevante aceitação dos cultos de raízes africanas entre pessoas de classe média.

Não vejo problema em alguém defender a sua fé religiosa e colocá-la como patrão de vida, junto com os princípios morais, contanto que se lembre de respeitar o credo alheio. A problemática se mostra preocupante quando a defesa da religião se apresenta extrema e – pior – em detrimento da crença do próximo. Quando o padre, em vez de aliviar o peso físico ou moral de quem lhe procura e – num ato de cooperativismo “santo” – defende o colega de batina que praticou a pedofilia, não faz senão compactuar com o crime. Este é tão miserável quanto aquele. Da mesma forma, quando o pastor pratica a bigamia (coisa comum entre os líderes desse seguimento religioso) e lança para o público falsos testemunhos com o único objetivo de aumentar o número de fiéis (e consequentemente de dízimos), podemos afirmar que o lugar dele no inferno está garantido.

            À maioria das pessoas que se dizem alicerce de religião imponho minha repreensão, pois, em geral, “quem faz uma religião não sabe o que faz. Por pouco diria a mesma coisa a respeito daqueles que fundam as grandes instituições humanas, ordens monásticas, companhias de seguro, guarda nacional, bancos, trustes, sindicatos, academias e conservatórios, sociedades de ginástica, de beneficência e de conferência. Esses estabelecimentos, comumente, não correspondem durante muito tempo às intenções de seus fundadores e acontece às vezes que se tornam coisas completamente opostas”. Refraseando: boas intenções até existem, muitas pessoas nasceram para as ações verdadeiramente humanitárias; entretanto, as mil faces da natureza humana ou os interesses escusos dos miseráveis que só pensam em si transformam qualquer religião em meio de vida, uma fonte inesgotável de arrecadação de dinheiro.

            É conhecido o sofrimento de quem, em meio à crise, pula de religião em religião, procurando a resolução do seu problema. Católicos recorrem a atividades espíritas, protestantes – às escondidas - preparam rituais com galinha, vela preta e sangue de bode, como fazem os pais-de-santo; estes últimos guias espirituais também não perdem tempo: quando precisam de dinheiro, oferecem seus serviços “do além” a políticos (que não seguem nenhuma religião, mas recorrem a qualquer espírito das trevas nas eleições). Essa corrente do desespero resume um pouco o pensamento geral sobre “religiosidade” e “interesse pessoal”, conceitos que se confundem, conforme a formação, o caráter e a vivência da maioria.

Fico imaginando o que Deus está achando de tudo isso!

Se a vida gira em torno da fé, devemos entender a religião como uma instituição que propague e potencialize os benefícios da fé. Tudo que foge a isso deve ser evitado.

 

 

 

 

(O Jornal, Maceió, sábado, 06 de março de 2010)

 

Colaboração:  James Magalhães


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