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Analfabetismo

28/03/2010


 

(Agamenon Magalhães Júnior)

 

Não sei o que se passa na cabeça de um adolescente quando ele vai à escola a passeio. Noto-o, no ambiente escolar, entusiasmado por todos os aspectos sociais: ele faz amizades, planeja passeios com colegas, marca inúmeros encontros em shows, conquista namoradas, recruta os melhores amigos para o jogo de bola aos domingos ou se programa para uma visita à cidade vizinha. Tudo muito divertido e apropriado à juventude. Entretanto, o mesmo adolescente vive se queixando do excesso de matérias e assuntos do Ensino Médio e não vê importância em se dedicar de corpo e alma aos estudos.

Vivenciar a juventude de forma plena não é defeito, pelo contrário, o certo é vivê-la com toda a intensidade possível, pois ela passa – e rápido; embora o jovem, em geral, se esqueça de dar valor aos estudos e à qualificação profissional de que tanto precisará no futuro.

Paradoxalmente ao desinteresse à escola, o estudante adolescente anseia pelo conforto de um bom salário e pelo prestígio que algumas profissões lhe proporcionariam. Os jovens passam da falta de consciência escolar à pura ilusão em poucos segundos. Os assuntos pelos quais se interessam passam longe dos conceitos técnicos ou das regras gramaticais.

“Outrora os analfabetos eram os que não iam à escola; hoje são os que a frequentam”, escreveu Paul Guth em “Carta aberta aos futuros analfabetos”. Com um pouco de atenção, observa-se que, em regra, o estudante sai da escola um pouco menos instruído do que quando nela entrou, pois “hoje se considera que há dois tipos de analfabetos. O analfabeto específico, que é o homem que não sabe ler nem escrever; e o analfabeto funcional, que é o homem que sabe ler e escrever, que pode ter até diversos graus de educação e que, do ponto de vista cultural, é tão analfabeto, ou mais (!) do que o outro, porque perdeu a cultura popular, de experiência, de costume tradicional”.

Mais de 75% dos jovens hoje apáticos com os estudos se tornarão homens socialmente inexpressivos, sem estabilidade financeira, frustrados com o trabalho (quando o conseguem) e, pior, instáveis no relacionamento familiar. Quando o desespero bate à porta, o arrependimento vem à mente: “Por que eu não me dediquei mais aos estudos? Por que eu não acatei o conselho de meus pais? Por que eu achei que a velhice nunca chegaria para mim?”, refletem.

Outro aspecto preocupante ganha luz quando se nota um número crescente de profissionais, em vários setores da sociedade, que mal sabem escrever o próprio nome ou fazer uma conta de dividir. Advogados, médicos, dentistas ou engenheiros sem formação apropriada infestam cada canto do país como se o serviço bem-feito prestado à população não fosse prioridade. A estes chamamos de “analfabetos graduados”.

Dia desses assisti a uma palestra dum advogado famoso aqui em Maceió. O “profissional” do Direito, em trinta minutos, atropelou a gramática de tal forma que chamou a atenção de alunos do Ensino Fundamental que estavam na plateia. Há pouco tempo também uma aluna minha do Ensino Médio me mostrou um bilhete que ela recebera de um dentista renomado. Um absurdo. Esse “arranca-dentes”, em seis linhas, errou mais ortografia e regência do que qualquer aluno desinteressado de escola pública. Os dois exemplos refletem o nível dos “doutores” que cuidam de interesses da população.

À medida que a sociedade proporciona espaço para o profissional maia-sola, existirão pessoas que se interessarão apenas pelo diploma e pelo dinheiro.

Por ora cuidemos de nossos jovens analfabetos para que eles não se tornem analfabetos graduados.

 

 

 

 

(O Jornal, Maceió, sábado, 27 de março de 2010)

 

Colaboração: James Magalhães


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