20/07/2010
(Agamenon Magalhães Júnior)
Ensinar em cursinhos me proporcionou um conjunto de experiências a respeito da vida e do ser humano que seria difícil consegui-lo tão rapidamente em outro contexto profissional.
Dar aulas a 120 ou 200 pessoas, por turma, sempre me deixou atento às lições sobre a natureza humana. Isso me exigiu bastante paciência, bom senso e equilíbrio. Vi de tudo: dezenas de alunos muito inteligentes se perderem na vida por causa das drogas. Alguns deles já chegavam à aula visivelmente alterados ou cambaleantes. Já fui testemunha de meninas que se deixaram levar pelo prazer sexual momentâneo e, por consequência, enveredaram por um caminho cujo resultado dava para o sexo pago. Passaram pelas cadeiras de cursinhos marginais que se especializavam em “puxar” veículos à mão armada.
Aqui também vale o relato do outro lado da moeda: centenas de jovens, sem a menor perspectiva, se entregaram aos estudos de forma desesperadora. A maioria tinha apenas o estudo para se erguer da pobreza, dar dignidade à família ou seguir seu destino com a força que nasce do vislumbre de um amanhã melhor. São os verdadeiros vencedores da vida. São esses jovens a primeira razão do exercício pedagógico do professor.
Esses alunos, que desejam vencer as adversidades pelo conhecimento e pela força interior, representam a recompensa do mestre, que os orienta e capacita-os para a vida. E a dedicação tem retorno garantido; cada conquista deles nos chega como se fosse nossa também!
Entretanto, não são os bons alunos meu objetivo profissional. Meu interesse são os alunos problemáticos. Se ajudar o bom aluno a encontrar o sucesso pessoal é gratificante, missão bem mais nobre é resgatar o jovem descrente de si mesmo ou envolvido no submundo do crime.
Esse compromisso com o próximo levo comigo para todas as aulas, sejam em escolas, sejam em cursinhos. Em geral, os professores fazem a parte que lhes cabe pela remuneração - e só. Entram na sala, expõem o assunto e saem com a característica impessoalidade. O corre-corre da vida, às vezes, impõe isso como regra.
Nunca poupei conselho a aluno que precisasse, nunca deixei de citar um bom exemplo motivador ao próximo, nunca me privei de mostrar ao aprendiz os benefícios do sacrifício a fim de se chegar a um objetivo. Essa atitude, apesar de incomum, é o que me instiga na profissão. Acho que ainda dou aula por isso: ser instrumento modificador da vida.
Tal qual um salva-vidas que, em meio à tragédia, sente-se bem ao salvar várias pessoas e se martiriza por não ter sido capaz de livrar da morte uma só vítima, eu me realizo quando restituo a esperança a quem se acha semimorto. O que pesa na consciência não é o número positivo dos indivíduos que socorro com êxito; e, sim, a quantidade de alunos que, nas dificuldades da vida, eu não consigo orientar.
Pode-se transformar a história de vida de qualquer um através do conhecimento. Essa afirmação resulta numa reflexão paradoxal: o conceito é simples tal qual uma verdade universal e, ao mesmo tempo, difícil de ser aceito na realidade juvenil. Minha missão é ser a ponte entre essa filosofia e o estudante.
Sinto muito orgulho do que faço quando encontro alguns jovens encaminhados na profissão e que foram orientados por mim; mas me questiono muito sobre meu papel social quando ouço más notícias a respeito de ex-alunos. Para que minha função educacional seja plena, não meço esforço para demonstrar aos meus alunos a importância de objetivar os estudos.
(O Jornal, Maceió, sábado, 17 de julho de 2010)
Não se esqueçam de que os meus ensaios estão, aos sábados, no Portal de O Jornal (www.ojornalweb.com)
Colaboração: James Magalhães