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Idioma

14/08/2010


 

(Agamenon Magalhães Júnior)

 

Sempre recebo e-mails de leitores me perguntando o porquê de eu usar esse ou aquele termo, uma ou outra expressão se as gramáticas e os dicionários desaconselham e até mesmo proíbem certas liberdades na utilização vocabular da Língua Portuguesa. Então vou fazer uma breve análise sobre o uso do idioma.

Para tanto, precisamos separar bem o “preconceito linguístico”, comum em todo o País, da falta de critério ao se elaborar livros técnicos - como manuais de português, gramáticas e dicionários - prática que resulta em “delírios” inimagináveis. Essa linha tênue, quando não considerada, provoca dúvidas na cabeça de estudantes ou intensifica o mito de que a Língua Portuguesa é a expressão idiomática mais difícil do mundo.

Quando não se observa a Língua com um olhar aberto, despido de teorias pré-fabricadas ou elitizadas, podemos compreendê-la melhor. Tenho um exemplo que sintetiza o caso: fui convidado por um grande colégio para dar conselhos e dicas para a garotada que vai fazer o Enem em novembro. O auditório lotou, todos atentos às minhas palavras. Às tantas, explicando aos estudantes a obrigatoriedade de nunca subestimar o idioma, fiz um comentário que incluía o termo “bola redonda”. Notei, no ato, uma reação de espanto por causa dessa expressão aparentemente errada. Um aluno chegou a me questionar: “Professor, ‘bola redonda’ não é pleonasmo vicioso?” E a plateia, antes de minha explicação, já parecia querer me “perdoar” pelo suposto deslize. Convenci a todos de que o termo está corretíssimo; ele está registrado no verbete “futebol” do “Dicionário Houaiss”, assim: “(...) e cujo objetivo é fazer entrar uma bola redonda no gol do adversário”. Portanto, é lícito falar ou escrever “bola redonda”, já que existe também bola oval, utilizada no futebol americano.

Esse episódio revela não apenas falta de conhecimento, mas também certo preconceito lingüístico, pois os jovens consideram errado tudo o que não se enquadra dentro de padrões cultos ou aquilo que não faz parte do linguajar característico da elite.

Esse problema, que desde sempre se incorporou à sociedade, persiste sem que haja interesse (de instituições ligadas à área) em mudar o quadro. Entretanto, há problema mais grave do que esse apresentado: o descaso, ou o amadorismo (sabe-se lá), na produção de livros técnicos de Língua Portuguesa. Isso, além de tornar o idioma vulnerável às intempéries de desvios vernáculos, afasta a população daquilo que lhe é símbolo da própria identidade nacional: o idioma. Por isso não nos cansamos de ouvir: “Português é difícil. É o idioma mais complicado do mundo”.

Não comungo com quem pensa assim, mas não tiro a razão deles, pois basta correr os olhos em alguns livros que deveriam primar pela informação correta e se vê uma inconsistência terrível. Todo cuidado com a qualidade geral de livros, gramáticas e dicionários é pouco. Busque-se a excelência dessas obras em todas as etapas da produção - do manuscrito à revisão geral.

É compreensível encontrar erro em jornal e revista, haja vista a luta contra o tempo que o jornalista trava diariamente. Já em dicionários, os erros são inaceitáveis. Nem mesmo os melhores estão livres desse pecado. O “Dicionário Eletrônico Luft”, uma dos mais importantes do Brasil, registra no verbete “próclise”: “Posição de pronome oblíquo depois [sic] do verbo”. Grave erro de revisão porque o correto seria “a anteposição do pronome ao verbo” (p. ex. “Que me digam”, “Não o querem aqui”).

Tratemos com respeito a Língua e os maravilhosos caminhos que ela apresenta serão vistos com deslumbramento - e não com desconfiança.

(O Jornal, Maceió, sábado, 14 de agosto de 2010)

 

Colaboração:

James Magalhães/Secretário de Comunicação/Sintect-AL


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