29/08/2010
(Agamenon Magalhães Júnior)
Geralmente o alagoano não assiste aos programas do guia eleitoral, prefere qualquer outra atividade a ter de se indignar com os candidatos na TV. Faço o contrário: sempre que posso, observo com atenção cada palavra deles. Cada mentira pronunciada por eles é registrada por mim. Autoflagelação? Não, é a consciência de que não há outra forma de ajudar o Estado a sair da lama senão analisando bem os “ilustríssimos” candidatos, mesmo que esse meu ato seja aparentemente incomum ou inútil para a maioria.
O programa em si não traz muitas novidades. Para eu ser sincero (se é que essa palavra cabe nesse contexto), os personagens são os mesmos, e os novatos seguem as fórmulas que, eleição após eleição, se repetem com sucesso garantido. Convenhamos, na corrida eleitoral vale tudo - tudo mesmo: mentir descaradamente, se fazer de desentendido ou ainda usar nariz e orelhas de palhaço!
Esse palanque eletrônico nos dá uma ideia de como eles são e de suas reais intenções para com nós mesmos. Quem, ao assistir a essas figuras folclóricas, procura planos de gestão pública, ações governamentais ou projetos para o crescimento social surpreende-se: os elegíveis prometem resolver os problemas do mundo (!) num passe de mágica. As propostas são as mais mirabolantes: uns juram que, se eleitos, vão moralizar a política; outros, mais cínicos, apostam a própria alma da mãe que transformarão, em pouco tempo, Alagoas num paraíso, num lugar sem ladrões, sem violência e sem pobreza. Alguns candidatos tiram até uma “ondinha” da cara do telespectador, fazendo promessas que nem o mais poderoso profeta seria capaz de cumprir.
Eis o retrato geral dos candidatos majoritários e postulantes aos outros cargos públicos nessas eleições. Mas o guia eleitoral revela mais do que isso! Afora a parte cênica característica, notamos que eles sabem das necessidades e dos problemas da população. No fundo, todos são conscientes da responsabilidade política para com a sociedade. Eles sabem da ação exata para que setores vitais possam funcionar com dignidade. Se não o fazem, é porque não querem ou não se interessam por isso.
Outro ponto muito interessante me vem à mente quando assisto ao horário eleitoral: o linguajar político. A característica das palavras sempre é a mesma, entretanto o seu significado merece atenção dos eleitores. Pensemos... todos os candidatos começam a discursar muito educadamente: “Meu amigo eleitor”. De verdade, querem dizer: “Olha pra mim, eleitor otário, quero seu voto agora”. Quando enchem o peito para falar da própria honestidade, estão nos transmitindo a mensagem: “Eu engano e roubo tão bem que é impossível um eleitor desligado da vida como você descobrir alguma coisa contra mim”. Ao propagarem planos e projetos, como quem se orgulhassem de ter soluções para todos os setores da sociedade, na real eles estão pensando: “Dane-se o pobre miserável, não estou nem aí pra essa gente toda e a única serventia do povão é o voto”. Quando dizem “confiem em mim”, interprete-se “votem em mim que eu depois lhes darei o que merecem, uma banana”.
Até nos gestos eles são padronizados: não precisa ser muito observador para ter visto um candidato - no meio da multidão, suando bastante e com um sorriso amarelo - abraçar uma criança e vociferar: “A juventude é o futuro do País!” A melhor interpretação para essa cena: “Tirem logo essa foto minha com esse garoto fedorento, porque eu não aguento mais”, pensa o demagogo.
Nas eleições, o eleitor precisa se conscientizar de que o ato de escolher os representantes políticos é uma atitude séria e isso traz consequências a todos. Essa responsabilidade não pode ser esquecida por quem tem o poder da transformação: o eleitor é o todo-poderoso. E vale lembrar: o que importa na escolha dos candidatos não é o que eles dizem, mas o que eles fazem e revelam sobre si mesmos.
(O Jornal, Maceió, sábado, 28 de agosto de 2010)
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Colaboração:
James Magalhães/Secretário de Comunicação/Sintect-AL