(82) 3326-4454
sintect-al@uol.com.br

Um conceito sobre injustiça social

04/09/2010


 

(Agamenon Magalhães Júnior)

 

Michael de Montaigne foi o primeiro pensador de renome mundial a escrever sobre o Brasil, ainda no século XVI, alguns anos depois do descobrimento deste lugar. No ensaio “Dos canibais”, Montaigne relata-nos o convívio com os índios, as lições observadas por ele e as comparações entre o modo de viver dos habitantes do Novo Mundo e o dos europeus “civilizados”. Com o auxílio de um intérprete, o francês tentou - com certa peleja - se comunicar com os índios e compreendê-los.

O filósofo francês chegou a relatar que teve precioso diálogo com um desses aborígines. Numa narrativa meio fantasiosa - além de ensaísta, Montaigne era excelente “contador” de histórias - ele cita com detalhes uma conversa em que um índio se indignou, depois de ouvi-lo falar dos costumes da França, contra a civilização moderna e contra as injustiças sociais do Velho Mundo, e mais ainda, disse-lhe que justiça mesmo havia ali entre os primitivos. O índio foi tão convincente que chegou a persuadir (eu diria envergonhar) o francês supostamente mais polido na cultura, nas maneiras e no trato entre pessoas.

Naquele instante da história houve um relampejo de reflexão entre a coerência do homem simples (parte representada pelo índio) e o aviltamento social (ali configurado pela “finura” do burguês da França).

Para os historiadores, é a chance de eles estudarem o conceito de ética e as razões que a fazem tão enraizada à cultura de uma civilização.

Ainda se referindo à injustiça social e às características da sociedade, pego essa deixa histórica e faço perguntas: O que deu errado no Brasil? Por que estamos tão aquém do nosso próprio padrão de justiça social? Em que momento da história o brasileiro se desviou do caminho da igualdade social?

Creio na existência de algo mais palpável do que aquela explicação da maioria dos historiadores na qual atribui essa questão à vinda de D. João VI, em 1808, como o início dos nossos problemas sociais.  Mais do que a falta de brio do português, herdamos deles um conjunto de mazelas que se perpetua até nossos dias.

A própria história nos deu chances (o caso de Montaigne ilustra bem isso) para transformações no decorrer dos séculos, mas os brasileiros não quiseram (ou não puderam) mudar.

Marcel Aymé, no livro “Silhueta do Escândalo”, diz: “A injustiça social é uma evidência tão familiar, ela é de uma constituição tão robusta, que parece facilmente natural àqueles mesmos que são suas vítimas”. Esse provérbio talvez defina melhor o que acontece com a personalidade brasileira: o povo se acostumou às aberrações da sociedade e à exclusão dos menos favorecidos. Por aqui, a maioria se acha incluído nesse contexto catatônico intrínseco à nossa natureza.

Só para lembrar: nenhum outro povo se inferioriza tal qual o brasileiro. Nenhuma nação se permite tanto domínio externo sobre o povo como o Brasil. Isso é fato. Esse “complexo de pobrezinho” vem de longe e, pior, se enraíza no cerne da sociedade igualmente a um câncer que vai abatendo e minando as forças de suas vítimas. Seja em comunidades pobres, seja em grupos com certo grau de instrução, o brasileiro tem um sentimento de comiseração que só não é mais grave do que a própria inaptidão para se questionar em relação à sua potencialidade.

Se um índio tupiniquim foi capaz de mostrar autoestima e juízo sobre aspectos sociais a um dos maiores pensadores de sua época, podemos reaver a ideia de que somos um povo forte e até superior a outras nações. Do Brasil Colônia pra cá, tivemos tempo para reflexões sobre o que é básico para uma atmosfera ideal de justiça.

(O Jornal, Maceió, sábado, 04 de setembro de 2010)

Colaboração:

James Magalhães/Secretário de Comunicação/Sintect-AL

 


Rua Ceará, 206 Prado Maceió - Alagoas 57010-350
SINTECT ALAGOAS 2026
(82) 3326-4454 sintect-al@uol.com.br