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Passando pelo inferninho

23/11/2010


 

 

(Agamenon Magalhães Júnior)

 

Meu irmão Carlos Magno Magalhães viaja muito. A profissão de técnico em informática o faz percorrer o Estado de Alagoas inteirinho. Às vezes, quando me sobra tempo, acompanho-o. Numa dessas viagens, ao voltarmos tarde da noite duma cidadezinha do interior, o carro deu problema. A cada trezentos metros, o veículo avisava que teríamos preocupações, até o motor parar de vez.

O único lugar onde poderíamos ficar até a chegada da seguradora foi num “restaurante” muito suspeito à beira da estrada, diga-se. Entramos no bar. E não demorou até a proprietária nos dar boas-vindas, deixando sobre a mesa suja e engordurada um surpreendente cardápio. Nele tinha de tudo para saciar a fome: coxinhas envelhecidas, “lazanha” (com ‘z’ mesmo) com recheio “exótico”, pastéis murchos e oleosos, e ovos cozidos azuis e vermelhos. Tudo muito adequado àquele ambiente. A última parte do cardápio, entretanto, chamou nossa atenção. Estava lá, discriminados com detalhes, outros tipos de serviços e “mercadorias”: quarto com banheiro tinha um preço; preservativo e bebidas “finas” eram servidos para cientes requintados e, por fim, um extenso menu de garotas que estavam à disposição para a libidinosidade dos clientes. A relação com nome e fotos das garotas era extensa, tinha ali todo tipo de mulher: nova, velha, magra, gorda, feia, bonita...

Sou contra a prostituição, mas também a vida me mostrou que não devo fazer julgamentos sobre quem se vende por algum motivo. Acho a prática abominável – o que essa “profissão” tem de antiga, tem de desumana. Quando uma mulher vende o corpo, vai junto com o ato sexual parte da dignidade que lhe é essencial para viver; portanto, cada prazer proporcionado ao cliente se transforma numa chance a menos delas viverem com esperança ou autoridade sobre si mesmas.

Outro ponto importante: longe de algumas opiniões a respeito da afeição da prostituta por essa vida (algumas pessoas dizem que elas se acostumam e, por fim, terminam gostando do que fazem); na verdade, elas repudiam esse “trabalho”. Sejam meninas muito pobres que se jogam na vida porque precisam sobreviver, sejam garotas bem-nascidas da classe média que fazem programas por estupidez – todas elas no fundo, em maior ou menor grau, envergonham-se dessa prática.

Na biboca onde acidentalmente parei com meu irmão, passamos cerca de duas horas e meia até nosso socorro chegar. Quando saímos, aconteceu um fato que ilustra bem o sentimento de desgosto e ignomínia ao qual são submetidas: um freqüentador daquela casa de tolerância, bastante embriagado, soltou o verbo com uma das “moças” por causa, acreditem, de ciúme. Parece-me que, enquanto ela estava com o cliente, jogava olhares para outro. Isso é típico. O “traído” saiu daquele estabelecimento puxando a mulher pelos cabelos, agredindo-a: “Sua puta! Sua vaca velha rodada! Você me respeite. Eu sou seu dono, vagabunda. Se eu quiser, boto fogo em você e nessa zona!” A mulher, mais preocupada em se defender das pauladas morais do que das físicas, retrucou: “Puta, não! Sou ‘profissional do sexo’ e meu ambiente de trabalho se chama ‘boate’, não é puteiro, não!”

Elas sabem em que enrascada de vida se meteram, são todas conscientes disso. Como um tipo de autodefesa ou de condição pessoal para saírem dessa vida, as mulheres não admitem para si (nem para a sociedade) a condição vexaminosa por que passam. Mesmo fantasiando futuros príncipes ou momento mágico em que elas transformem o próprio destino, todas têm inconscientemente o mesmo sonho das meninas mais pudicas da sociedade: alguém para amar - e viver para amar os filhos. Querem constituir família e dela cuidarem com afeto e responsabilidade. Almejam o carinho do (único) homem amado, anseiam por uma vida apenas... feliz.

Qualquer juízo negativo sobre esse assunto precisa ser revisto pelas pessoas para que a própria sociedade seja beneficiada.

 

(O Jornal, Maceió, sábado, 20 de novembro de 2010)

 

Não se esqueçam de que os meus ensaios estão, aos sábados, no Portal de O Jornal (www.ojornalweb.com)

Colaboração: James Magalhães/Secretário de Comunicação/Sintect-AL


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